21 de março de 2008

Bullying – A apologia da permissividade



“És um fraco”. No corredor de uma escola. À entrada para o refeitório. À chegada ao escritório. A frase repete-se e perpetua-se num ritual que toca um pouco todos os cantos da sociedade. Chama-se bullying e é cego perante a idade, o local, o estrato socio-económico. Insinua-se pelas brechas abertas pela insegurança e flúi livremente por entre a prepotência e a dominação.



Este fenómeno social reteve a nossa importância pela visibilidade que tem vindo a receber nos meios de comunicação social. Descrito pela Doutora Ana Tomás de Almeida como uma “forma de comportamento agressivo que se distingue por ser deliberado e que apresenta um carácter repetitivo”, o bullying é uma realidade nos mais diversos estabelecimentos de ensino e locais de trabalho. Regra geral, é exercido no seio de grupos estáveis – tais como uma turma, o exército, no interior da família (quer entre irmãos, quer entre os cônjuges), em grupos desportivos e mesmo em contextos laborais. Costuma pautar-se por um ritual em que uma figura de carácter dominador se aproveita da sua autoridade institucionalmente concedida para legitimar comportamentos abusivos face a indivíduos que apresentem idiossincrasias muito específicas, nomeadamente, uma sensibilidade ou fragilidade mais notórias.



Sendo inviável apurar responsáveis ou detectar causas lineares e generalizáveis, pode, contudo, atentar-se em alguns factores decisivos para tentar compreender este fenómeno do ponto de vista do agressor. Nesse aspecto, a Doutora Ana convida-nos a observar as características da criança, sobretudo o seu temperamento, que pode vir a revelar-se decisivo para sondar a sua susceptibilidade para protagonizar situações de bullying. Igualmente importante é o histórico familiar, marcadamente se este revela indícios de um comportamento muito coercivo ou repressivo por parte dos pais. Deve ainda atentar-se no grupo de pares da criança, pois determinados climas de grupo “incentivam, como que activam a emergência de comportamentos de agressor-vítima”. Por fim, num contexto de uma sociedade que revele contornos autoritários, estão criadas condições que propiciam a ocorrência de episódios de bullying.




Muitas vezes encarado como um ritual iniciático, o bullying surge frequentemente dissimulado sob práticas tais como a praxe, que, oficialmente, se propõe como ritual de integração dos novos alunos que ingressam na universidade. No entanto, esta integração parece nunca vir a concretizar-se, dando lugar a cenários que espelham uma autoridade distorcida e ilegitimamente atribuída aos “doutores”. Esta situação conta ainda com a permissividade e a complacência dos que enraizaram a “normalidade” – que não passa de uma vulgaridade mascarada pela força do hábito – desta ocorrência. Trata-se da visão da nossa entrevistada, acima citada, que considera que “a praxe aproveita-se da cobertura institucional que tem, da sua legitimação, para se instituir e para, a coberto desta aceitação social, passar a situações de vitimização”.



O cenário agrava-se se considerarmos as sequelas que o bullying pode vir a produzir nas crianças e nos adolescentes: desde a exclusão da vítima, passando por um desenvolvimento deficiente das suas competências sociais até à afectação da sua auto-imagem, este mecanismo de exclusão social encontra num carácter vulnerável, sensível e particularmente inseguro um terreno fértil para o seu exercício. É por isso que a investigadora aponta a construção de uma boa auto-estima e a aposta no fortalecimento da sensação de segurança da criança como o caminho para fazer face a este fenómeno omnipresente. Importa, sobretudo, numa sociedade que evita ao máximo o recurso à autoridade, exercê-la por quem está legitimamente habilitado a fazê-lo. No entanto, esta autoridade não deve seguir os padrões educacionais antigos, pautados pela coercibilidade e pela intimidação, mas adaptar-se a uma realidade que se apoie na premissa de que é da liberdade que nasce a responsabilidade, e não o contrário.
Particularmente relevante para o ciberjornalismo é o ciberbullying, uma forma de bullying que se processa ao nível da plataforma digital, assim como através das novas tecnologias, tais como os telemóveis. Em termos genéricos, pode afirmar-se que esta forma de coerção social tira partido das vantagens das novas tecnologias – a divulgação da informação em larga escala e em breves instantes – para afectar negativamente a imagem pública das pessoas. O conceito permanece, portanto, o mesmo, assumindo apenas contornos particulares pelos meios através dos quais se processa e pela escala e rapidez com que é colocado em prática.





Alguns casos:
Houve o caso de um jovem basco, Jokin Cebrio, que suportou durante um ano em silêncio, o comportamento agressivo dos seus colegas, até que não aguentou mais e contou o que se sucedia aos pais. No entanto, quatro dias depois, acabou por pôr termo à vida.

Nos Estados Unidos, houve um caso recente que chocou o mundo. Cho Seung-hui, um estudante de origem sul-coreana de 23 anos, invadiu a sua universidade (Virginia Tech) e matou 32 pessoas, suicidando-se de seguida. O Bullye deixou uma carta explicando seu acto, onde dizia :"Vocês levaram-me a isso", culpando os outros alunos pelo massacre, uma vez que se dizia discriminado e perseguido por eles.




Há alguns dias rebentou um caso de bullying nas escolas portuguesas, desta feita na Escola Secundária Carolina Michaelis, no Porto. Uma aluna mostrou um comportamento agressivo para com a sua professora porque ela lhe havia tirado o telemóvel. Esta é uma das modalidades que começam a aparecer em Portugal, em que a violência não é praticada entre alunos, mas de um aluno para com um professor.




Mais sobre bullying:

Agressividade infantil

O Fenómeno Bullying como causa dos massacres em escolas.

Casos de "bullying" em Portugal precisam de maior compreensão

"Violência não preocupa ministra"

"Bullying – A provocação/vitimação entre pares no contexto escolar português", de Susana Fonseca de Carvalhosa,Luísa Lima e Margarida Gaspar de Matos (PDF)

Bullying nas escolas

Professores também são vítimas

"Bullying e o mal que causa"

1 comentário:

Sergio Denicoli disse...

O tema está em apurado, mas cometeram de forma exagerada um erro que chemei a atenção em sala de aula, por diversas vezes: usaram fotos e música que ferem a Lei dos Direitos do Autor. As fotos poderiam ter sido tiradas por vocês em alguma escola, ou mesmo num parque, sem que as ciranças fossem identificadas. Senti falta também do podcast e do slideshare. Como os demais grupos utilizaram as ferramentas todas, tive que descontar alguns pontos de vocês, pois não pude avaliar a utilização desses suportes. As fotos que não estão no slideshow não possuem legendas, o que pode deixar o visitante do blog confuso. O vídeo traz informações relevantes, mas por vezes fica confuso, como na hora em que vocês mostram fotos de estudantes. Quem não tiver um conhecimento prévio do que estão a falar, acaba por não ser informado. O texto está bem escrito e conduz o leitor de forma leve, apesar do tema ser algo muito sério, o que é um ponto muito positivo.